FLANC

 
 

 

 

Prezados colegas,

Este é meu último discurso como presidente da FLANC. Foram dois anos de muita responsabilidade, muito trabalho, muita luta, muitas viagens, mas também de muito prazer e orgulho em exercer um cargo onde eu pudesse realmente fazer a diferença para a profissão que escolhi e que me deu tudo o que eu tenho hoje.

Não sei o que seria de mim se não tivesse me transformado em um neurocirurgião. Não consigo imaginar algo que me oferecesse uma fração do prazer, da alegria, da plenitude e estado de absoluta realização pessoal de quando estou em um centro cirúrgico, usando meu conhecimento, minha técnica e habilidade para tentar reparar o órgão mais importante e sensível do corpo humano.

Não sei se sou romântico demais, mas para mim, uma cirurgia é como uma obra de arte. Vejo beleza, vejo emoção, vejo inspiração. As cores, os detalhes, a maestria com que temos de aplicar nossa técnica. Vejo poesia nas palavras de cada um dos presentes. Olho para um cérebro e me encanto.

Me entusiasmo com a possibilidade de realizar uma obra-prima. Pode ser exagero de minha parte, mas eu realmente me transporto para outra dimensão ao vestir um jaleco azul ou verde, (prefiro o verde, por ser palmeirense).

Que me desculpem os mais pragmáticos, mas tenho paixão em ser neurocirurgião. Tenho prazer e orgulho. Às vezes nos achamos deuses por ter frequentemente à vida de pessoas em nossas mãos. A ilusão de que somos aqueles que decidem sobre a vida ou a morte de um paciente.

Mas só nós somos capazes de saber o que significa salvar a vida de uma pessoa. Só nós sabemos o que uma cirurgia bem sucedida impacta na vida de um ser humano e seus entes queridos.

A cada paciente salvo estamos interferindo diretamente na felicidade de muita gente. E mesmo para aqueles com senso de realidade não tem como evitar o pensamento desatinado de possuir uma espécie de dom divino.

Mas, por outro lado, só nós sabemos o que significa sermos incapazes de salvar a vida de um paciente a despeito de todos os nossos esforços. Não há como não nos sentirmos os piores dos piores. Neste instante nos colocamos no ponto mais distante possível do conceito de divindade e onipotência.

É por isso que sempre repito que ser neurocirurgião é mais do que uma profissão: é uma missão. Esta montanha russa emocional definitivamente não é para amadores. A despeito de todo conhecimento, toda técnica, toda boa vontade, só pessoas de fibra, de força interior e despojamento são capazes de lidar com o que temos de lidar todos os dias.

Nossas famílias também sofrem, vocês sabem muitobem. As prolongadas ausências, a inexistência de sábados, domingos e feriados, chamados no meio da noite, as interrupções abruptas de eventos familiares. Vale lembrar que nós escolhemos a profissão de neurocirurgiões, não eles. E mesmo conscientes de que nosso sacrifício também é pelo bem deles, temos de valorizar, e muito, o papel da família em nossas vidas e entender eventuais protestos. Arrisco à dizer que, sem eles, não teríamos condições de exercer nossa atividade em sua plenitude.

Mas existem outras pessoas que merecem todo o nosso respeito e admiração pelo verdadeiro calvário que vivem: nossos pacientes.

Apesar de estarmos ali para tratar do cérebro, na verdade estamos cuidando é do coração das pessoas. A carga emocional que todo o processo enseja, os diagnósticos inconclusivos, a proximidade da morte, a tristeza e a alegria, o choro, a tensão, o desespero, a euforia… não há meio termo emocional para um paciente que precisa de uma neurocirurgia.

Não existe tranquilidade, não existem pequenas emoções. Apenas extremos. E quem mais sofre nisso tudo certamente é o coração. Não há dúvidas que o maior herói em toda esta história é o paciente. Por isso defendo e sempre defendi o tratamento o mais humanizado possível. O respeito, a atenção, o carinho com aquele que está passando pelos piores dias de suas vidas.

Não apenas por uma questão humanitária, mas porque acredito que um tratamento mais humano faz toda a diferença. É claro que não estou comparando com a medicação, mas o carinho, o amor e o respeito também são drogas poderosas. E não apresentam nenhum efeito colateral. Portanto, não é uma questão de personalidade do médico, mas uma obrigação profissional.

 

 

Fiz essa pequena, ok, não muito pequena, introdução para lhes dar uma breve noção do que a neurocirurgia significa para mim e tenho certeza de que muitos de vocês compartilham comigo essa visão. Até aqui falei com o neurocirurgião, mas agora preciso voltar ao papel de presidente da FLANC para prestar contas destes dois anos em que estive à frente desta relevante sociedade.

Provavelmente ninguém aqui irá lembrar dos 7 principais pontos de nossa plataforma anunciados no início de nosso mandato. Mas nós não esquecemos, então darei aqui um breve relato do que ocorreu com cada um deles.

Primeiro ponto

Incentivar o compartilhamento de conhecimento dos formadores de opinião. Nossos esforços nessa área foram recompensados. Criamos uma plataforma de ensino a distância com a realização de webinares com os maiores especialistas da área. Além disso, criamos nossa própria rede social, o Workplace, onde pudemos postar informações dos mais variados espectros para o compartilhamento com os colegas. E o responsável por esta área, que merece todo nossa admiração e respeito, foi o doutor e grande amigo Mario Izurieta.

Segundo ponto

Desenvolver um banco de dados único para facilitar à busca de informações sobre os pacientes. Infelizmente não conseguimos realizar esse objetivo. E o motivo foi simples e lamentável. Praticamente não existem banco de dados disponíveis nos países latino-americanos. Sendo assim, um banco de dados único é quase uma utopia. Espero que as futuras administrações tenham mais sorte e consigam iniciar um movimento a favor desta fundamental ferramenta de trabalho no neurocirurgião.

Terceiro ponto

Incentivo às pesquisas para publicação na revista da FLANC, a Revista Neurocirurgia. Neste aspecto também fomos bem sucedidos. Muitos profissionais atenderam ao nosso apelo, produzindo novos materiais. Deixo aqui um agradecimento especial ao nosso colega peruano Germán Posadas Narro por sua dedicação na direção desta revista que aos pouco vai ganhando mais e mais relevância no cenário mundial.

Quarto ponto

Estimular visitas aos serviços de Neurocirurgia dos Estados Unidos para treinos específicos. Sim, neste ponto também conseguimos oferecer a vários profissionais a possibilidade de participar, principalmente com relação aos serviços de neurooncologia.

Quinto ponto

Unir esforços com as principais sociedades continentais. Neste aspecto em particular o resultado foi expressivo com a criação de novas parcerias, novos eventos e muita troca de informações. Posso afirmar sem medo de errar que à neurocirurgia mundial está um pouco mais unida em relação aos anos anteriores.

Sexto ponto

Parceria com a OPAS, Organização Panamericana de Saúde para melhor equipar hospitais regionais de neurocirurgia. A despeito de todos nossos esforços, não obtivemos resposta da OPAS. E quando digo não obtivemos resposta estou sendo literal. Foram incontáveis telefonemas e e-mails enviados sem que nos fosse dado um feedback.

Sétimo e último ponto

Promover a divulgação de evidências especializadas em todos os países latinos. Neste campo posso dizer que foi o mais bonito e importante gol que marcamos em nossa gestão. A criação das webinares, como citei anteriormente, teve uma excelente receptividade. E o sucesso foi tão grande que até a World Federation e outras sociedades copiaram nosso modelo e passaram a produzir suas próprias webinares.

Temos uma boa notícia também que não estava em nossa plataforma, mas que temos muita satisfação em termos realizado. Realizamos uma pesquisa de todos os serviços de neurocirurgia com 900 jovens médicos e residentes para entender melhor quais são as principais questões a serem tratadas. Publicada no World Neurosurgery, se tornou uma ferramenta muito importante, uma bússola para que possamos resolver problemas e incrementar o que estiver dando certo. Um agradecimento especial ao doutor Yoshua Esquenazi Levy que coordenou esta pesquisa com extrema competência.

 

 

Aí vocês me perguntam: estou satisfeito? Claro que não. Não importa o quanto conseguimos avançar, nunca é suficiente. Sempre é possível realizar mais, sempre podemos ir mais adiante. Mas não podemos, ao mesmo tempo, ignorar que passos importantes foram dados. Parafraseando o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, não fazemos o que queremos. Fazemos o que conseguimos.

Mas podem ter a certeza, e digo isso do fundo do meu coração, que fizemos o máximo de nós e a dedicação de todos deve ser citada e reconhecida. Honramos a responsabilidade que nos foi dada com seriedade, energia e perseverança, buscando elevar, em cada um de nossos passos, o nome e a importância da nossa sociedade, a FLANC.

E se me permitem, gostaria de deixar mais uma pequena contribuição, elencando o que acredito serem necessidades a serem atendidas pelas próximas administrações:

  • Criar embaixadores para cada continente, descentralizando a administração e a tomada de decisões, agilizando o processo de integração de todas as sociedades.
  • Maior participação dos membros do Comitê Executivo. Compreendo a dificuldade que todos temos de administrar nossas agendas, mas ao nos colocarmos a disposição da FLANC é necessário um pouco mais de sacrifício de todos para que os resultados desejados sejam atingidos de forma mais rápida e eficiente.
  • E peço a todos os colegas do Comitê que continuem lutando pela união de todos, não somente nos para o fortalecimento da neurocirurgia como classe e não dependendo apenas de atuações individuais. Precisam participar mais das webinares, atender às solicitações da sociedade com mais celeridade e presteza, utilizar e incentivar o uso do workplace para o bem de todos nós, amantes da neurocirurgia.

 

 

Gostaria de agradecer ao meu Comitê Administrativo, especialmente o Basílio, o Marco Túlio e o Marco Portillo, pelo empenho e pela parceria ao longo destes dois anos, mas, principalmente pela amizade.

À minha família, sem a qual eu não teria condições de exercer minha profissão com alegria e tranquilidade, e finalmente à minha parceira de vida, minha companheira eterna, a Wanir que tem estado comigo em todos os momentos, que me apoia em todas as situações e me dá segurança para eu seguir o caminho que escolhi seguir na minha vida com altivez e responsabilidade. Obrigado Wanir, por estar em minha vida.

E é assim que me despeço da presidência da Federação Latinoamericana de Neurocirurgia. Com a sensação de missão cumprida e desejando que a sorte ao doutor Claudio Yampolsky, nosso próximo presidente, e que sua gestão seja ainda mais efetiva do que a nossa, que leve adiante todos os avanços que realizamos nestes dois últimos anos e eleve ainda mais a neurocirurgia latinoamericana para à condição de protagonismo que merece.

Um grande abraço a todos e nos vemos por aí.

Obrigado.

 
 

1

The Neurosurgical Atlas

2

Brazilian Neurosurgery

3

Revista Neurocirugia

4

North American Spine Society: NASS

5

Journal of Neurosurgery

6

American Association of Neurological Surgeons

7

Congress of Neurological Surgeons

8

World Federation of Neurosurgical Societies: WFNS

9

Revista Argentina de Neurocirugia

10

Surgical Neurology International
 


 

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